sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Clonagem

A especulação crescente em torno da possibilidade de se vir a criar clones , (não só humanos, mas também de outras espécies animais) fez da clonagem um dos aspectos mais debatidos da ciência contemporânea.

Será eticamente correcto criar um ser humano a partir de outro, fazendo-o geneticamente idêntico a este, para nossa única satisfação e proveito próprio?

Será moralmente correcto destruir tudo aquilo que a Natureza tem vindo a criar há milhares e milhares de séculos? Quais os benefícios que esta atitude trará à nossa sociedade?

Os estudiosos desta área defendem que a clonagem trará benefícios a nível da saúde, pois criará oportunidades aos doentes terminais de sobreviverem, através da implantação de células estaminais – saudáveis - previamente clonadas, no seu organismo. Outros ainda afirmam que este processo impedirá a extinção de certas espécies, pela clonagem de indivíduos dessas espécies, de modo a perpetuar a sua existência. E justificam também que este será um meio de ajudar casais inférteis a procriar.

Em oposição, estão aqueles que consideram a clonagem anti- ética e anti-natura. Afirmam ser imoral a criação de outro ser humano que não terá, à partida, muitas hipóteses de sobrevivência – para nosso capricho ou utilidade própria, apelando ainda para o abuso da ciência em relação à Natureza, ao pretender refazer tudo aquilo que esta demorou milénios a criar.

È certo que todos estes argumentos são discutíveis, visto não haver provas concretas que sustentem cada um deles. Mas existe, para o último de todos, uma prova irrefutável, que está na base da Evolução e que foi enunciada por Charles Darwin em 1859, no livro A Origem das Espécies : a Teoria da Selecção Natural.

Segundo Darwin, a Selecção Natural é um processo gradual, pelo qual o ambiente leva à eliminação dos membros de uma população, menos adaptados ao meio e com menos capacidade de sobrevivência, antes de atingirem a idade reprodutiva. Por este processo, o ambiente leva também à reprodução diferencial dos diferentes genótipos.

Se a Natureza procede deste modo, e deste modo evoluíram as espécies ao longo do tempo, modificando-se por necessidade de adaptação ao meio e adquirindo diversidade – então de que nos vale tentar ir contra a Lei Natural , abusando da nossa sorte e pondo em risco a nossa sobrevivência?

O argumento que sustenta a possível salvação de espécies em perigo já não é tão forte como parecia: não sabemos quais os resultados de um cruzamento de dois clones, e muito menos se esta clonagem dará origem a indivíduos saudáveis.

Segundo um artigo publicado a 12 de Novembro de 2007, no jornal «Público», as experiências relativas à clonagem tiveram, até agora, 97% de taxa de insucesso. Noutro ainda, publicado a 15 de Novembro, falava-se numa equipa de cientistas que após 10 anos de tentativas falhadas e 15 mil ovócitos perdidos, conseguira clonar um símio, afirmando, porém, que o processo a que haviam recorrido era ainda pouco eficiente.

Portanto, a salvação de uma espécie não é tão linear como isso, e poderá ser apenas uma solução a curto prazo, visto que, com um ambiente em constante mudança e uma necessidade de adaptação crescente, uma população constituída por seres geneticamente idênticos não seria capaz de sobreviver por muito tempo. Por isso a Natureza possibilitou a diversidade.

Quanto ao uso da clonagem para ajuda de casais inférteis, para estes existe uma resposta muito simples e bem mais segura – a fertilização in- vitro. E dado que a taxa de insucesso é tão elevada, não faria sentido tentar ajudar aqueles que perderam um bebé, já que o mais provável seria a perda de outro. E parece-me, como a muitos, imoral e pouco ético pôr os interesses pessoais antes da vida de qualquer ser, humano ou não.

Existe ainda quem apele para a utilidade da clonagem na indústria alimentar, pela criação de animais para consumo. Novamente voltamos à questão do insucesso: os animais poderão sofrer alterações funestas de DNA, o que terá impacto na sua saúde e, consequentemente, na dos consumidores, levando a possíveis epidemias, piores do que as provocadas pela BSE ou pelo surto de H5N1.

Quanto ao uso da clonagem para fins terapêuticos, não me parece haver nada a objectar, contando que tudo seja devidamente estudado e balanceados os seus benefícios e malefícios.

É certo que também são destruídos embriões neste processo, mas estes não chegam sequer a desenvolver-se, sendo-lhes retiradas as células estaminais- posteriormente desenvolvidas in- vitro- antes da primeira semana.

Por isso, parece-me válido que a clonagem seja utilizada para este fim. De outro modo, sou totalmente contra o processo, por me parecer, pelas razões expostas, imoral e anti-ético.



Maria Ana Benoliel Nunes Bonito – 11º1 – nº18

2 comentários:

Paulo39 disse...

Bom texto. Gostava no entanto de vos fazer pensar numa coisa. Neste texto, a Maria fala-nos da prova irrefutável que é a Lei da Selecção Natural, enunciada por Charles Darwin, que ditou até agora a nossa forma e aquilo que somos. A Maria põe-nos a questão: "Então de que nos vale tentar ir contra a Lei Natural (...)?". Bem, o que eu penso sobre o assunto é o seguinte: nós, humanos, somos uma espécie muito evoluída (precisamente devido a esse processo evolutivo da Lei da Selecção Natural). Temos uma consciência, pensamos racionalmente. Ora, nós somos feitos pela Natureza, somos obra dela, e somente dela. Assim sendo, eu acho que tudo aquilo que nós poderemos vir a criar é uma criação indirecta da Natureza. Ou seja, se nós vamos desenvolver a tecnologia da clonagem é precisamente para tentarmos perpetuar a nossa espécie (então não é esse o objectivo de todas as espécies?) e só estaremos então a continuar a aplicar essa Lei Natural (embora com meios de tal forma sofisticados que dificilmente se associam à Natureza).
Se nós fazemos parte da Natureza, como poderemos ir contra ela? Nada pode ir contra a Natureza ou destrui-la, porque nada mais existe que a própria Natureza
Parece uma visão muito estranha das coisas, mas vou dar outro exemplo, que talvez vos cause ainda mais perturbação: Desde sempre que houve guerras entre nações. Toda a gente concorda que é um acontecimento condenável e que a Humanidade devia fazer todos os possíveis para viver em paz. Pois eu vos digo que isso é impossível. É-o porque eu acho possível, e até provável, que esse tipo de conflitos é uma forma da Natureza controlar a dimensão da nossa espécie. Se não houvesse guerras, a população mundial seria gigante, não caberíamos no planeta, acabaríamos com os recursos naturais muito rapidamente (é o que está a começar a acontecer). Ora, secalhar, a Natureza criou-nos já assim, com algum "mal" dentro de nós, estamos programados para sobreviver, mas também para manter a quantidade minimamente equilibrada, ficando apenas os melhores e mais fortes. Parece animalesco e impossível estarmos programados para fazer mal uns aos outro de vez em quando, mas a noção de bem e mal é algo criado pela sociedade humana, não existia antes disso.

maria disse...

Interessante, sem dúvida, e um belo ponto de vista. Proponho, no entanto, que se reveja o último ponto da questão. Será a guerra, realmente, uma forma de controlar o crescimento exacerbado da espécie Humana? Ou será que, mesmo não havendo guerra, a SELECÇÃO NATURAL (ponho em destaque o conceito que despoletou este debate) se encarregaria de fazer esse controlo? Para já porque, se formos ver as coisas pela óptica que nos foi descrita, só as armas sobreviveriam, pois são elas as mais fortes, neste caso. Parece rídiculo e até sarcástico da minha parte invocar aqui as armas,mas é impossível falar-se de guerra sem se falar de armas. De qualquer modo, não é isso que está em questão. A questão é: será a guerra realmente gerida pela Lei do Mais Forte?
Não nego que a natureza não nos tenha criado com algum «mal» intrinseco, também não nego que a noção de bem e mal tenha sido concebida pelos homens. Mas a Lei do mais forte é algo que existe desde sempre e só pode ser verificada nas Lutas corpo a corpo, e não naquelas em que são usados instrumentos de criação humana- ainda que estes possam ser indirectamente criados pela Natureza- que poderão ter mais força em si que os próprios Homens.
O mesmo se passa com os instrumentos e meios utilizados na clonagem.