Fonte: Youtube (Bioética - Clonagem)
A clonagem é ainda um tema pouco discutido, e para algumas pessoas quase tabu; talvez pela sua característica mais dramática de nos oferecer a possibilidade de copiar um ser humano, de criar vida num tubo de ensaio; ou talvez por ser retratada pelo cinema e literatura como algo irreal e futurista. No entanto, há algo de muito terreno no que toca à clonagem: é, actualmente, uma realidade, mas não nos termos a que Hollywood nos habituou.
Mas discutir um tema sem o conhecer é dar um tiro no escuro. A probabilidade de se falhar o alvo é maior, e por isso é preciso saber como se processa a clonagem e as implicações que ela pode ou não trazer para a Humanidade, antes de dizermos sequer se estamos de acordo ou não.
O que é então a clonagem? É uma forma de se produzir uma nova célula com material genético igual àquela que lhe deu origem. Ora dito assim parece uma daquelas definições que vêm nos livros e que ninguém percebe; o melhor é explicitar como tudo realmente se processa: o DNA de uma célula somática (célula que não é sexual; ou seja, é uma célula de uma parte qualquer do corpo de um individuo e não um espermatozóide ou um óvulo) é retirado e transferido para um óvulo cujo núcleo foi previamente removido. De seguida, este óvulo, com o DNA de uma célula somática, recebe energia que o vai ajudar a dividir-se. Depois de divisões sucessivas obtém-se um embrião cujo património genético é igual à célula somática original; ou seja, o embrião tem igual material genético que o dador da célula somática que lhe deu origem. É um embrião clonado. Este embrião tanto se pode desenvolver no corpo do indivíduo a quem pertence o óvulo, como em laboratório. Ora isto leva-nos à existência de dois tipos de clonagem: a reprodutiva, quando ocorre no útero do individuo, e a terapêutica, quando o embrião se desenvolve laboratorialmente. Mas estes tipos de clonagem não se baseiam apenas no “local” onde o embrião se desenvolve. A clonagem reprodutiva tem a ver com a criação de um clone inteiro, ou seja, é a criação de um ser vivo completo com características genéticas iguais à da célula-mãe; enquanto que a clonagem terapêutica está relacionada com a cura de doenças, havendo apenas a clonagem de órgãos ou tecidos específicos do individuo.
É, no entanto, necessária a diferenciação entre estes dois tipos de clonagem, pois para além de serem diferentes em técnicas, procedimentos e complexidade, apresentam problemas morais distintos: a clonagem mais “importante” (inquestionavelmente benéfica e aconselhável) da clonagem menos ética, mais “ficção científica”. Clonar seres humanos completos é, muito provavelmente, um erro não só moral como prático; e a desculpa de que o poder de fazer renascer alguém é uma dádiva é questionável. Isto porque o clone da pessoa em questão, por mais idêntico que seja fisicamente do ser que lhe deu origem, é diferente em personalidade e memórias. Na prática, se perdêssemos um ente querido e o fizéssemos “renascer” dos mortos pelo milagre da clonagem não teríamos essa pessoa de volta, apenas uma projecção física, um holograma palpável, uma laranja sem sumo. Não conseguimos reproduzir na totalidade as condições ambientais, sociais e educacionais onde a pessoa original cresceu e se desenvolveu, e por isso o clone nunca será exactamente igual; terá uma educação diferente, uma personalidade diferente e vivências diferentes. Por isso, com que desculpa e legitimidade podemos nós criar vida desta maneira? Para quê? Com que finalidade? Se o objectivo de uma técnica destas é trazer novas esperanças e oportunidades ao ser humano, que bem inquestionável nos traz a criação de vida humana dentro de um tubo de ensaio?
Há, no entanto, uma clonagem menos drástica, e provavelmente considerada mais moralmente aceitável: é a clonagem para fins terapêuticos e não reprodutivos. Isto apresenta um avanço brutal na medicina; esta técnica permitia por si só a cura de dezenas de doenças. A possibilidade de criar um tecido de qualquer parte do corpo humano oferece-nos um poder que não pode ser questionado. A cura para doenças como Alzheimer e Parkinson estaria garantida; assim como a cura de qualquer doença que exigisse um transplante de tecidos ou órgãos. Esta tarefa era difícil e muitas vezes impossível (resultando na morte do doente) porque era necessário encontrar um dador perfeitamente compatível; com a clonagem esse problema já nem se coloca, porque o tecido transplantado vem da própria pessoa. Haverá dador mais compatível do que o próprio doente…? Mesmo assim, há quem conteste. A imagem de criar um coração humano inteiro dentro de um frasco para depois o transplantar para o corpo doente pode assustar as mentes mais susceptíveis, e talvez fazer lembrar muitos enredos de banda desenhada ou de filmes de terror. De facto, a criação destes tecidos "clonados" tem algo de inacreditável e discutível (será moralmente aceitável clonar vida desta forma? Quebrar a ordem natural?), mas os benefícios são inquestionáveis; muito provavelmente, neste caso, os fins justificam os meios. Basta ver como desde há décadas a vida animal é sacrificada diariamente pelo bem da ciência. Contem todos os ratinhos vítimas de experiências laboratoriais e talvez consigam um número com bastantes algarismos. O que aqui choca os mais conservadores é tratar-se de embriões humanos e não de um qualquer animal. Com que legitimidade podemos usar embriões como cobaias para desenvolver uma técnica desta envergadura? É discutível; mas a lista de doenças curáveis graças à clonagem terapêutica pode e deve pesar no julgamento.
Cabe a cada um construir a sua opinião e argumentar sobre o assunto. Puxar a brasa à sua sardinha é aceitável, mas temos de pensar que as brasas são de todos. Se há liberdade, cada cidadão deve ter tanto o direito de escolher ou não a clonagem como ajuda ou cura para a sua situação, como a responsabilidade de conjugar tal decisão com os seus valores morais, éticos ou religiosos; no entanto, é errado proibir e lutar contra a clonagem só porque se discorda com ela. Quem não quiser que não se sirva dela, mas deixem que a liberdade de escolha de cada um esteja à frente da proibição generalizada.
Ana Sousa nº 1
Renato Rocha nº 22
11º1 (ESPAV)
1 comentário:
Excelente, perfeito. Penso exactamente como vocês, mas vocês expressam-se bem melhor.
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