A especulação crescente em torno da possibilidade de se vir a criar clones , (não só humanos, mas também de outras espécies animais) fez da clonagem um dos aspectos mais debatidos da ciência contemporânea.
Será eticamente correcto criar um ser humano a partir de outro, fazendo-o geneticamente idêntico a este, para nossa única satisfação e proveito próprio?
Será moralmente correcto destruir tudo aquilo que a Natureza tem vindo a criar há milhares e milhares de séculos? Quais os benefícios que esta atitude trará à nossa sociedade?
Os estudiosos desta área defendem que a clonagem trará benefícios a nível da saúde, pois criará oportunidades aos doentes terminais de sobreviverem, através da implantação de células estaminais – saudáveis - previamente clonadas, no seu organismo. Outros ainda afirmam que este processo impedirá a extinção de certas espécies, pela clonagem de indivíduos dessas espécies, de modo a perpetuar a sua existência. E justificam também que este será um meio de ajudar casais inférteis a procriar.
Em oposição, estão aqueles que consideram a clonagem anti- ética e anti-natura. Afirmam ser imoral a criação de outro ser humano que não terá, à partida, muitas hipóteses de sobrevivência – para nosso capricho ou utilidade própria, apelando ainda para o abuso da ciência em relação à Natureza, ao pretender refazer tudo aquilo que esta demorou milénios a criar.
È certo que todos estes argumentos são discutíveis, visto não haver provas concretas que sustentem cada um deles. Mas existe, para o último de todos, uma prova irrefutável, que está na base da Evolução e que foi enunciada por Charles Darwin em 1859, no livro A Origem das Espécies : a Teoria da Selecção Natural.
Segundo Darwin, a Selecção Natural é um processo gradual, pelo qual o ambiente leva à eliminação dos membros de uma população, menos adaptados ao meio e com menos capacidade de sobrevivência, antes de atingirem a idade reprodutiva. Por este processo, o ambiente leva também à reprodução diferencial dos diferentes genótipos.
Se a Natureza procede deste modo, e deste modo evoluíram as espécies ao longo do tempo, modificando-se por necessidade de adaptação ao meio e adquirindo diversidade – então de que nos vale tentar ir contra a Lei Natural , abusando da nossa sorte e pondo em risco a nossa sobrevivência?
O argumento que sustenta a possível salvação de espécies em perigo já não é tão forte como parecia: não sabemos quais os resultados de um cruzamento de dois clones, e muito menos se esta clonagem dará origem a indivíduos saudáveis.
Segundo um artigo publicado a 12 de Novembro de 2007, no jornal «Público», as experiências relativas à clonagem tiveram, até agora, 97% de taxa de insucesso. Noutro ainda, publicado a 15 de Novembro, falava-se numa equipa de cientistas que após 10 anos de tentativas falhadas e 15 mil ovócitos perdidos, conseguira clonar um símio, afirmando, porém, que o processo a que haviam recorrido era ainda pouco eficiente.
Portanto, a salvação de uma espécie não é tão linear como isso, e poderá ser apenas uma solução a curto prazo, visto que, com um ambiente em constante mudança e uma necessidade de adaptação crescente, uma população constituída por seres geneticamente idênticos não seria capaz de sobreviver por muito tempo. Por isso a Natureza possibilitou a diversidade.
Quanto ao uso da clonagem para ajuda de casais inférteis, para estes existe uma resposta muito simples e bem mais segura – a fertilização in- vitro. E dado que a taxa de insucesso é tão elevada, não faria sentido tentar ajudar aqueles que perderam um bebé, já que o mais provável seria a perda de outro. E parece-me, como a muitos, imoral e pouco ético pôr os interesses pessoais antes da vida de qualquer ser, humano ou não.
Existe ainda quem apele para a utilidade da clonagem na indústria alimentar, pela criação de animais para consumo. Novamente voltamos à questão do insucesso: os animais poderão sofrer alterações funestas de DNA, o que terá impacto na sua saúde e, consequentemente, na dos consumidores, levando a possíveis epidemias, piores do que as provocadas pela BSE ou pelo surto de H5N1.
Quanto ao uso da clonagem para fins terapêuticos, não me parece haver nada a objectar, contando que tudo seja devidamente estudado e balanceados os seus benefícios e malefícios.
É certo que também são destruídos embriões neste processo, mas estes não chegam sequer a desenvolver-se, sendo-lhes retiradas as células estaminais- posteriormente desenvolvidas in- vitro- antes da primeira semana.
Por isso, parece-me válido que a clonagem seja utilizada para este fim. De outro modo, sou totalmente contra o processo, por me parecer, pelas razões expostas, imoral e anti-ético.
Maria Ana Benoliel Nunes Bonito – 11º1 – nº18
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Clonagem - Um tema sempre "actual"
Fonte: Youtube (Bioética - Clonagem)
A clonagem é ainda um tema pouco discutido, e para algumas pessoas quase tabu; talvez pela sua característica mais dramática de nos oferecer a possibilidade de copiar um ser humano, de criar vida num tubo de ensaio; ou talvez por ser retratada pelo cinema e literatura como algo irreal e futurista. No entanto, há algo de muito terreno no que toca à clonagem: é, actualmente, uma realidade, mas não nos termos a que Hollywood nos habituou.
Mas discutir um tema sem o conhecer é dar um tiro no escuro. A probabilidade de se falhar o alvo é maior, e por isso é preciso saber como se processa a clonagem e as implicações que ela pode ou não trazer para a Humanidade, antes de dizermos sequer se estamos de acordo ou não.
O que é então a clonagem? É uma forma de se produzir uma nova célula com material genético igual àquela que lhe deu origem. Ora dito assim parece uma daquelas definições que vêm nos livros e que ninguém percebe; o melhor é explicitar como tudo realmente se processa: o DNA de uma célula somática (célula que não é sexual; ou seja, é uma célula de uma parte qualquer do corpo de um individuo e não um espermatozóide ou um óvulo) é retirado e transferido para um óvulo cujo núcleo foi previamente removido. De seguida, este óvulo, com o DNA de uma célula somática, recebe energia que o vai ajudar a dividir-se. Depois de divisões sucessivas obtém-se um embrião cujo património genético é igual à célula somática original; ou seja, o embrião tem igual material genético que o dador da célula somática que lhe deu origem. É um embrião clonado. Este embrião tanto se pode desenvolver no corpo do indivíduo a quem pertence o óvulo, como em laboratório. Ora isto leva-nos à existência de dois tipos de clonagem: a reprodutiva, quando ocorre no útero do individuo, e a terapêutica, quando o embrião se desenvolve laboratorialmente. Mas estes tipos de clonagem não se baseiam apenas no “local” onde o embrião se desenvolve. A clonagem reprodutiva tem a ver com a criação de um clone inteiro, ou seja, é a criação de um ser vivo completo com características genéticas iguais à da célula-mãe; enquanto que a clonagem terapêutica está relacionada com a cura de doenças, havendo apenas a clonagem de órgãos ou tecidos específicos do individuo.
É, no entanto, necessária a diferenciação entre estes dois tipos de clonagem, pois para além de serem diferentes em técnicas, procedimentos e complexidade, apresentam problemas morais distintos: a clonagem mais “importante” (inquestionavelmente benéfica e aconselhável) da clonagem menos ética, mais “ficção científica”. Clonar seres humanos completos é, muito provavelmente, um erro não só moral como prático; e a desculpa de que o poder de fazer renascer alguém é uma dádiva é questionável. Isto porque o clone da pessoa em questão, por mais idêntico que seja fisicamente do ser que lhe deu origem, é diferente em personalidade e memórias. Na prática, se perdêssemos um ente querido e o fizéssemos “renascer” dos mortos pelo milagre da clonagem não teríamos essa pessoa de volta, apenas uma projecção física, um holograma palpável, uma laranja sem sumo. Não conseguimos reproduzir na totalidade as condições ambientais, sociais e educacionais onde a pessoa original cresceu e se desenvolveu, e por isso o clone nunca será exactamente igual; terá uma educação diferente, uma personalidade diferente e vivências diferentes. Por isso, com que desculpa e legitimidade podemos nós criar vida desta maneira? Para quê? Com que finalidade? Se o objectivo de uma técnica destas é trazer novas esperanças e oportunidades ao ser humano, que bem inquestionável nos traz a criação de vida humana dentro de um tubo de ensaio?
Há, no entanto, uma clonagem menos drástica, e provavelmente considerada mais moralmente aceitável: é a clonagem para fins terapêuticos e não reprodutivos. Isto apresenta um avanço brutal na medicina; esta técnica permitia por si só a cura de dezenas de doenças. A possibilidade de criar um tecido de qualquer parte do corpo humano oferece-nos um poder que não pode ser questionado. A cura para doenças como Alzheimer e Parkinson estaria garantida; assim como a cura de qualquer doença que exigisse um transplante de tecidos ou órgãos. Esta tarefa era difícil e muitas vezes impossível (resultando na morte do doente) porque era necessário encontrar um dador perfeitamente compatível; com a clonagem esse problema já nem se coloca, porque o tecido transplantado vem da própria pessoa. Haverá dador mais compatível do que o próprio doente…? Mesmo assim, há quem conteste. A imagem de criar um coração humano inteiro dentro de um frasco para depois o transplantar para o corpo doente pode assustar as mentes mais susceptíveis, e talvez fazer lembrar muitos enredos de banda desenhada ou de filmes de terror. De facto, a criação destes tecidos "clonados" tem algo de inacreditável e discutível (será moralmente aceitável clonar vida desta forma? Quebrar a ordem natural?), mas os benefícios são inquestionáveis; muito provavelmente, neste caso, os fins justificam os meios. Basta ver como desde há décadas a vida animal é sacrificada diariamente pelo bem da ciência. Contem todos os ratinhos vítimas de experiências laboratoriais e talvez consigam um número com bastantes algarismos. O que aqui choca os mais conservadores é tratar-se de embriões humanos e não de um qualquer animal. Com que legitimidade podemos usar embriões como cobaias para desenvolver uma técnica desta envergadura? É discutível; mas a lista de doenças curáveis graças à clonagem terapêutica pode e deve pesar no julgamento.
Cabe a cada um construir a sua opinião e argumentar sobre o assunto. Puxar a brasa à sua sardinha é aceitável, mas temos de pensar que as brasas são de todos. Se há liberdade, cada cidadão deve ter tanto o direito de escolher ou não a clonagem como ajuda ou cura para a sua situação, como a responsabilidade de conjugar tal decisão com os seus valores morais, éticos ou religiosos; no entanto, é errado proibir e lutar contra a clonagem só porque se discorda com ela. Quem não quiser que não se sirva dela, mas deixem que a liberdade de escolha de cada um esteja à frente da proibição generalizada.
Ana Sousa nº 1
Renato Rocha nº 22
11º1 (ESPAV)
Subscrever:
Comentários (Atom)